terça-feira, 12 de janeiro de 2010



« Quando o Silêncio Fala... »
Sylvia Cohin

Quando o silêncio fala, é isso...
Luz a fazer-se pensamento decantado e mudo.
Vasto como a solidão, nasce no imo e deságua em mim, clareza súbita a brotar da imensidão de minha galáxia.

Quando o Silêncio fala, ecoa.
Murmúrio impreciso, pleno de lampejos,
fala comigo no espanto de descobertas, enquanto
reverbera martelando em mim, os seus sinais.

Quando o silêncio devaneia...
É Lucidez a me atirar nos braços da Razão.
É bússola que me aponta o Norte, Mão que me arrasta, Chão que não me deixa despencar.

Quando o silêncio fala...
Aguça minha consciência e me estremece o coração.
Sua presença maciça me invade como onda em
quebra-mar, sua voz a latejar! Inúteis as mordaças.

Quando o silêncio fala... eu calo.
Deixo que me penetre sem opor resistência, e como um rio, abraço a afluência que me inunda, ou me encolho como água de barragem, contida na garganta das comportas...

E no Aceite de minhas incoerências, mansamente,
enquanto sorvo Respostas, escuto enfim!

Sylvia Cohin
Publicado em 12.01.2010

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009


« Homenagem a Fernando Peixoto »

Fernando, julgo que foi contigo e com o Zé Manel, que uma tarde lemos um texto de Victor Hugo, o Zé Manel havia desenhado uma bela capa para um livro que reunia textos do dramaturgo e pensador francês. Encontrei um apontamento de um texto de Hugo, o que se segue é uma paráfrase roubada nocturnamente ao poeta.

“¿A qué misteriosa llamada no ha podido resistir tu aun joven destino?

La noche no dejó que el alba diera a luz el día. El tiempo es corto entre la sonrisa de ayer, y tu mirada ausente.

Tu río, el que sigue cruzando tu calle día a día, no hallará nada de aquello que le prometían tus sueños: la caricia ruda de las rocas, los gestos suaves de las hierbas y las hojas, el galopar por la cumbre descendiendo la montaña, el paso rudo sobre los prados.
-Apenas nacido, el océano ya lo ha tragado.

Los que parten con la aurora nos dejan perdidos con el peso de nuestro cariño inútil. Nos dejan con esa ausencia de amor que nos tritura arrastrando sus cruces y pesares.

Y se nos dice:
«La vida sigue y sigue. Tenemos que seguir también con ella».
Pero sabemos, con la obstinación del que nada entiende al medio del fragor de un futuro aniquilado; ¡ Qué importa el camino que lleva hasta la tarde si hemos de marchar ahora solitarios!”

Roberto Merino M/Setembro de 2009

(tradução)

“A que misteriosa chamada não pôde resistir teu ainda jovem destino?

A noite não deixou que a alvorada desse à luz o dia. O tempo é curto entre o sorriso de ontem, e teu olhar ausente.

Teu rio, o que segue cruzando tua rua dia a dia, não encontrará nada daquilo que lhe prometiam teus sonhos: a carícia rude das rochas, os gestos suaves das ervas e as folhas, o galopar pelo cume descendo a montanha, o passo rude sobre os prados.
Apenas nascido, o oceano já o engoliu.

Os que partem com a aurora, nos deixam perdidos com o peso de nosso carinho inútil. Nos deixam com essa ausência de amor que nos tritura arrastando suas cruzes e pesares.

E nos diz:
«A vida segue e segue. Temos que seguir também com ela».
Mas sabemos, com a obstinação do que nada entende ao meio do fragor dum futuro aniquilado; Que importa o caminho que leva até a tarde se temos que marchar agora solitários!”

Roberto Merino M/Setembro de 2009

ROBERTO MERINO MERCADO (chileno - 1952, naturalizado português em 2000, está em Portugal desde Janeiro de 1975, tendo acompanhado a Revolução de Abril quase toda).
Na ESAP (Escola Superior Artística do Porto),
ocupa o cargo de Director do Curso Superior de Teatro desde 1982.
É professor de Interpretação, Direcção Teatral, encenação, teatro e Educação, e também Dramaturgo, quando lhe permitem as múltiplas atividades.



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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

« Trabalho Infantil »

Fernando Peixoto

Tem apenas doze anos o miúdo!
Doze séculos, já, de frustração,
Doze séculos inteiros de absurdo
E poucos, muito poucos de ilusão.

Doze anos num rosto de graúdo
E tantos, já, na luta pelo pão!
Meu menino lindo a quem falta tudo!
Meu menino, meu filho, meu irmão!

Teu corpo frágil move-se na dança
Horripilante dum trabalho duro
C'o a música das máquinas por fundo.

As tuas mãos, pequenas, de criança,
Ganham calos brincando c'o Futuro
Enquanto esperas que melhore o mundo.

FERNANDO PEIXOTO

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« SILÊNCIO »
às nossas crianças...
Sylvia Cohin

Faz de conta que o tempo parou
Em sua tela há tantas crianças
São embrião das aventuranças
Soltas ao léu, são tempo que passou
Quimeras que a brisa esfuma
Fragmentos, alegres e tristonhos
Dessa vida gestante de sonhos
De devaneios perdidos na bruma...

Silêncio...
É hora de ajuntar pedaços,
Trazer de novo ao coração vazio
A criancinha que a estender os braços
Espera um colo por anos a fio

Silêncio!
Ouça-se o grito dessas crianças
Deixem-nas VIR A SER
Sob o olhar de tênues Esperanças
Nossas crianças pedem pra Viver!

SYLVIA COHIN



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sábado, 3 de outubro de 2009

« Neste Céu Onde me Embalo »
Sylvia Cohin & Fernando Peixoto

Não imaginas ainda que te conte
o peso da saudade atormentando,
a falta que me faz um horizonte
sorrindo, braços abertos, chamando...

Mas sei que mesmo assim tu me adivinhas
pois és esse horizonte de que falo
que tento inutilmente ver em linhas...
que eu risco neste céu onde me embalo...


Eu sou um horizonte? Sou, talvez...
uma linha que se perde no espaço...
a linha que procuras e só vês
quando ela se esconde em teu regaço.

Eu sou aquela linha indefinida,
tímida, indecisa e recortada
por névoas constantes escondida
e apenas nos teus olhos revelada.

Mas eu quero ser mais que um horizonte:
eu quero ser o ponto de chegada
para tu beberes na minha fonte
a água do amor purificada.


SYLVIA COHIN & FERNANDO PEIXOTO
Portugal



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« O Passar do Tempo »

Fernando Peixoto & Sylvia Cohin


Passa o tempo por nós e nem pensamos
que viramos a folha ao calendário,
nem mesmo nesse tempo que gastámos
correndo contra o tempo e sem horário.
Passa a vida correndo bem depressa,
tão ligeira que até nem percebemos,
quanta vida se queda na promessa!
Que valioso o tempo que perdemos!
Passa tudo tão depressa, voando...
Nem lembramos, sequer, que está passando!
Vendo o fio do tempo que se esvai,
erguemos no Passado a nossa História
retomando um caminho, que se vai
aliar no Futuro, c'o a Memória.

Fernando Peixoto & Sylvia Cohin


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domingo, 20 de setembro de 2009

« Superação II »

Fernando Peixoto - Sylvia Cohin


O rio corre por si mesmo,
e as margens em que querem limitar-nos
são elas mesmas limitadas.
Jamais alguém pode aprisionar-nos...

Caminha o rio, inexorável...
Os escolhos contorna com destreza;
Entre margens, serpenteia confortável
como nós, faz o seu curso com firmeza...

Nós temos horizontes bem mais largos,
nós somos a espiral dessa vontade
que parte de nós e vai por aí fora,
escorre como leito vagabundo
para um mar de sonhos que se estende
pela Terra inteira.

Nós somos o desenho no infinito,
do Ontem, do Amanhã e do Agora
vontade que, tão forte, faz-se grito
e o outro alcança sem demora...
Um oceano sorrateiro que invade
essa aridez da realidade.

Nós somos a indómita vontade
que alguém jamais pode algemar,
nós somos essa liberdade
que ninguém pode aprisionar

Nos somos a coragem obstinada,
a nau do navegante que a remar,
vê um farol no vulto de sua amada
e em sua direção, enfrenta o mar

nós somos olhos bem abertos
que jamais alguém pode fechar,
nós somos neurónios bem despertos
que jamais alguém pode calar,
somos seres humanos, seres concretos
com o inegável direito de sonhar.

somos oásis no deserto,
teimosa esperança a verdejar,
somos o sonho mais concreto
que alguém jamais pôde imaginar,
e a ninguém é dado usar o veto
a esta liberdade basilar.

Nenhuma mágoa é já bastante
p'ra tirar-nos o direito de cantar
porque nós vemos sempre mais distante
do que os outros podem alcançar.

Nem é bastante a tristeza a cercear
os passos que nos levam adiante,
nem há vento que impeça o velejar
da nau desse sonho navegante!

Nosso canto é um grito que se estende,
um apelo, talvez, lançado ao vento...
Mas é superação de quem entende
que a vida é mais do que um momento
e que não se restringe ao sentimento
da mágoa por quem nunca nos entende...

Nosso canto se alastra em movimento,
rumo ao céu que nos acaricia
ora a rir de prazer, ora lamento,
enquanto nós vivemos a magia
de superar o anseio e a utopia,
e «eternizar» enfim, nosso momento...

Nós somos ainda a consciência
lúcida, desperta, irrefreável,
que nos dá, dia-a-dia, a coerência
pra seguirmos um rumo incontornável.

Nós somos, de dois, a pura essência,
o ardor de um querer inexorável
e seiva a sustentar essa existência
no enlace mais íntimo e inviolável!

Nós sabemos o que somos e o que queremos
mesmo quando choramos e sofremos,
mas somos, sobretudo seres humanos
donos de nós mesmos, soberanos!

Fernando Peixoto & Sylvia Cohin
13.01.2005 - 01.02.2005

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domingo, 9 de agosto de 2009

« SAUDADE »

Sylvia Cohin

Hoje havia uma saudade
fazendo pouco de mim
Daquelas que o peito invade
numa ousadia sem fim...

Me atiçava e se escondia
entre as bordas da memória
Vendo-me aflita, sorria,
com seu ar de grande glória!

Oh tirana, és impiedosa,
trituras meu coração,
Por quê insistes, tão teimosa,
em tanta perseguição?

Quero ao menos respirar
na ilusão de que partiste
E já não pairas no ar
com meus ais na mão em riste!

Prometo que te conservo
porque sei que ninguém há-de
Escapar de ser teu servo,
pois quem ama, tem saudade!

Na verdade eu te confesso,
não posso viver sem ti...
Porque na saudade eu meço,
todo amor que já vivi...

SYLVIA COHIN

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quinta-feira, 23 de julho de 2009

« SEGREDANDO »

Fernando Peixoto

Sugo-te, sereia, o doce néctar,
o mel com que sempre me inebrias
e espalho no teu ventre esta saliva
que me escorre do sabor dos teus cabelos.
Teus olhos me iluminam
e fascinam
Teu hálito em meus lábios me segreda
volúpias que entontecem
e tuas mãos arpejam meus sentidos
como um eco de delícias nos ouvidos.
Vem, meu amor, vem de mansinho
passear teus pés na curva do caminho
onde deitado me quedo à tua espera.

FERNANDO PEIXOTO


Portugal, 05.01.2005
« DIVAGANDO »

Sylvia Cohin

Pelas mãos de Urano ungida
E abençoada por Geia,
Eu sigo o Aceno da Vida
Rumo à minha Odisseia...

Sob o enlevo da emoção
Que me arrepia de espanto,
Dispara meu coração
E embarga a voz o meu canto

Nos olhos reflito a lua
Dividida em hemisférios
Que sorrindo seminua,
Me assombra com seus mistérios

Os alísios que me embalam
Rumo ao Norte a flutuar,
Para o amor, alas me abram
Sobre o galeio do mar!

Na aflição que me domina,
Mal consigo esvoaçar
E entre bacante e menina,
Prossigo, quero avançar!

E assim tecido meu Céu,
O Arco-íris minha estrada
E essa coragem fiel,
Pelo Olimpo bem-fadada

Pra seguir como encantada,
Afinal, ao lado teu...
E o mundo não era nada.
Éramos nós... Tu e Eu!

Se foi sonho ou se vivi,
Na verdade pouco importa;
No arcobaleno eu me vi,
Quando o Amor abriu a porta.

SYLVIA COHIN

Brasil, 12.02.2004