
Um olho que olha, o outro que vê.
No mato cerrado, a fera desliza.
Com ajuda do olfato, a presa à mercê
do faro apurado e o sopro da brisa.
O instinto felino ataca certeiro.
Duelo de instante, a presa se faz
oferta que jaz no altar traiçoeiro,
macabro festim da morte voraz...
Resta o silêncio com cheiro de medo,
e a vida alimenta a Vida na Terra.
Um guincho no ar completa o enredo,
no instante seguinte o drama se encerra.
No mato é assim, quem pega, consome,
licença não pede e não há tribuna.
Na mata se mata pra matar a fome.
Pecado não há... e não há quem puna.
Lá não há reza, nem pobre, nem rei,
porém dos Limites, todos dependem.
Da Língua que falam, juro, nem sei,
só sei que ela é Lei e todos se entendem!
E num ritual que é quase solene,
quem urra, faz hurras, quem silva, sibila!
Sem chip, HD, memória é o gene
do reles bacilo, ao maior gorila.
A Raça que sobra, (nem Fauna, nem Flora),
e reza contrita uma Ave Maria,
faz glosa, faz rima pra Nossa Senhora,
mas vive pra Guerra de noite e de dia.
Da Paz faz pretexto e a alma penhora...
Que a lei desta 'Selva'... é só Utopia.
SYLVIA COHIN
Porto-Pt, 20.08.2008
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