
DUETO: «Soneto a Clio»
Fernando Peixoto
Não peças à razão pra me suster
Nesta fome ansiosa de abraçar-te,
E não penses que posso imaginar-te
Um só dia que seja sem te ter.
Que eu bem queria, Amor, ter o poder
De, ao menos por instantes, olvidar-te
E não ter, como tenho, de beijar-te
Para ter a certeza de viver.
É tão forte este amor, que me detenho
Acusando Cupido da maldade
De me apanhar assim, desprevenido.
Já não sei se te perco ou se te tenho,
Se és apenas mulher ou divindade,
Ou um sonho de amor enlouquecido.
Sylvia Cohin
Diz-me, Amor, se a razão encontra espaço,
Ardendo como fogo lentamente...
Se existe impedimento que sustente,
A ânsia de acolher-te num abraço...
Quisera estar contigo em meu regaço
No afago de ternura que alimente
A sede de viver, em ti, premente
E em água no deserto, me desfaço...
Benditas são as artes do Cupido
Na flecha envenenada pelo Amor,
atingindo tua Musa plenamente.
Faz-se Vida o Mito bem concebido
Que o Olimpo cultiva com lavor,
E nos brinda c'os frutos da semente...
FERNANDO PEIXOTO & SYLVIA COHIN