quarta-feira, 14 de maio de 2008

« Na Cidade dos Sonhos »

Sylvia Cohin

Sonho é sonho, sem idade,
Que além da realidade
Inspira e ajuda a viver;
O sonho que a mão espalma,
Definha e sufoca a alma
Que luta pra não morrer...

É cidade que se espalha,
Que a imaginação entalha
Com o cinzel da emoção
Onde habita toda ânsia
E em qualquer circunstância,
É pilar de construção.

Só fica perdido em véus
No topo de arranha-céus,
Fora do alcance da mão.
Transforma-se em utopia
"ah, se eu pudesse faria"
Entre o desejo e a ficção.

Sendo o sonho intemporal,
Parece sempre atual,
Nasce envolto de grandeza,
Seu esplendor pede espaço,
Mas lhe basta um bom regaço
E do aconchego, a certeza...

No ‘concreto’ se edifica
Devagar, corporifica,
Parto de dor e de anseio...

Por quê raios nesta vida
Se o sonho é 'sob medida',
Metade é só devaneio?

SYLVIA COHIN

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terça-feira, 4 de março de 2008

« AQUILES NA CIDADE»
Sylvia Cohin

gira, gira, gira mundo,
giração descompassada
sabor de melancolia
ora sonho, ora agonia
vendo a vida num segundo
que o tempo reduz a nada

gira o ponteiro da hora
gira o turno de trabalho
gira o dia da semana...
logo o amanhã é agora,
logo o depois é grisalho,
e dispara a vida insana

deita, acorda, sai correndo
corre atrás do autocarro,
corre, que vem o patrão,
corre atrás do dividendo,
fuma apressado um cigarro,
faz check up ao coração...
e não controla a emoção

insônia, estresse, gastrite,
dor de intestino, colite,
sempre sem trégua ou limite...

corre pra cumprir horário,
dirige na contra-mão,
tem agenda com alarme,
relógio de precisão,
num corre-corre diário
esquece a descontração...
deixa para trás o charme
da aparência, da ilusão...

competição inclemente,
sofre a pressão do apelo
a coação do modelo
que o sistema indiferente
cobra, dissimulado...
apela pro relaxante
entre a agonia e o enfado

guarda sonhos na gaveta
e quando chega aos sessenta
persegue o tempo perdido
resta um troco de gorjeta
um só desejo acalenta:
ser vencedor, não vencido...
acupuntor, analista,
de si mesmo anestesista...

dá-se conta do engodo:
é um Mito da Cidade
voraz e devoradora
silenciosa e soturna
vive o dia à média luz
mete os sapatos no lodo
nessa rotina diuturna,
confundindo a identidade
c'o peso da própria cruz.

chora o canto emudecido
canta a falta de alegria
falta-lhe o riso no olhar...
ri um tanto dolorido...
dói e tomba de apatia...

Tomba hirto a gargalhar:
hirto da própria agonia!

SYLVIA COHIN

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